A Educação para o
Desenvolvimento Humano:
ou: A Educação, a Vida, e a Felicidade
C) A Educação e o Caráter “Aberto” da “Programação” Humana
D) A Educação e a Aprendizagem
E) Aprendizagem e Construção de Habilidades e Competências
F) A Educação, a Racionalidade e a Liberdade
G) A Educação, o Inato e o Ambiente
A educação é importante na vida porque ela é a única forma de o ser humano se desenvolver. Não digo que a educação é a “principal” forma de o ser humano se desenvolver: afirmo que é a única.
Quando falo em educação, porém, não tenho em mente o que acontece em nossas escolas – mesmo as melhores.
Explico-me – aos poucos.
Diferentemente do que acontece com outras espécies animais, o ser humano não nasce pronto para a vida. Na verdade, nasce totalmente despreparado para ela. Ao nascer, o ser humano é literalmente incompetente para viver: se outros não cuidarem dele, simplesmente não sobrevive. Por nascer totalmente incompetente, ele também é absolutamente dependente do cuidado dos outros: não possui nenhuma autonomia.
A educação é o processo que a raça humana inventou para fazer com que esse ser totalmente incompetente e absolutamente dependente ao nascer se torne um ser humano adulto competente para viver – não uma vida qualquer, que represente apenas a sua sobrevivência, mas a vida que ele, autonomamente, escolhe para si próprio ao definir seu projeto de vida.
Isso quer dizer que a educação é conditio sine qua non da vida – vida no sentido pleno, vida que decorre da realização de um projeto de vida próprio.
Há uma distinção importante entre sobreviver – manter-se biológica e mesmo mentalmente vivo – e viver plenamente, viver uma vida realizada, “fruir a vida”.
Alguém pode sobreviver totalmente sem educação, desde que outros cuidem dele. Quanto menos educação tem uma pessoa, mais dependente dos outros ela se torna – em outras palavras: menos autônoma ela é. A pessoa totalmente dependente é, na realidade, uma parasita: depende dos outros para tudo.
O ser humano, nos seus anos iniciais, claramente depende, e muito, dos outros. Mas o objetivo desse cuidado que ele requer dos outros deve ser a construção gradual de sua competência e de sua autonomia. A dependência, neste caso, além de ser temporária, é justificada pelo fato de que ela é necessária (mas não suficiente) para que desenvolvamos competências e, assim, alcancemos a autonomia, e, com elas, a vida plena, realizada.
O ser humano adulto, mesmo quando competente e autônomo, ainda vai depender de outros, mas sua dependência, nesse caso, é livremente negociada com outros seres humanos – sendo, portanto, baseada em trocas.
Mas há uma outra condição, aparentemente mais branda, mas, talvez, ironicamente, mais trágica, em que a vida não passa de mera sobrevivência. Nessa hipótese, conseguimos nos educar o suficiente para que nossa sobrevivência não dependa totalmente dos outros. Entretanto, não conseguimos nos educar a ponto de tornar-nos capazes de:
* Definir um projeto de vida próprio; ou
* Transformar um projeto de vida em realidade.
Faltando qualquer dos dois elementos dessa hipótese, também não conseguimos viver uma vida livremente escolhida por e para nós mesmos, uma vida construída na autonomia e na competência, a vida que leva à realização pessoal e, por conseguinte, à felicidade – que é o único tipo de vida que, literalmente, vale a pena viver.
Continuo explicando-me.
O ser humano, apesar de nascer incompetente e dependente, nasce com quatro características extremamente importantes:
* Nasce com sua “programação” em grande medida “aberta”;
* Nasce com uma incrível capacidade de aprender e disposição para aprender;
* Rapidamente aprende a discriminar, avaliar, escolher e decidir.
Não há a menor dúvida de que o ser humano nasce com algumas funções, essenciais para a sua vida, devidamente “programadas” (ou determinadas). Ele não precisa aprender a exercer nenhuma das funções internas de seu organismo. Ao nascer, em condições normais, o coração lhe bate, o sangue lhe flui pelas artérias e veias, os pulmões funcionam, o sistema digestivo está pronto para operar, etc. Nada disso precisa ser aprendido.
Mas não há dúvida de que muitas das funções que serão realmente essenciais para a vida autônoma e competente do ser humano adulto, e que envolvem sua interação com o ambiente humano e natural, não lhe estão “programadas” (determinadas) ao nascer. O bebê humano, ao nascer, não sabe isolar e identificar objetos e pessoas em seu ambiente, não sabe sequer pegar um objeto que está diante dele, não sabe se equilibrar sobre as pernas, não sabe andar, não sabe entender a fala humana nem, muito menos, falar, etc. Ao nascer, o ser humano também não sabe muito bem discriminar (diferenciar) as coisas quanto ao gosto, à aparência, etc. Por isso, em geral não tem muitas preferências: aceita beber um leite materno aguado, sem gosto, veste seja lá o que for que lhe ponham sobre o corpo, etc.
Em todos esses aspectos, ele não nasce “programado” (determinado). Todas essas competências – e inúmeras outras – precisam ser aprendidas. E o ambiente, especialmente o ambiente cultural, é extremamente importante no seu aprendizado. Apenas para dar um exemplo, toda criança normal – e me recuso a considerar essa expressão imprópria ou ofensiva – aprende a falar, no seu devido tempo: mas cada uma aprende, primeiramente, a falar a língua do seu ambiente cultural mais próximo (razão pela qual a língua que aprendemos a falar primeiro é denominada de “materna”: “a língua da mãe”).
Porque o ser humano nasce incompetente, isto é, não sabendo fazer virtualmente nada, tudo o que ele vem, oportunamente, a saber fazer ele precisa aprender.
Felizmente, o ser humano nasce com uma incrível capacidade de aprender e disposição para aprender. Rapidamente, e sem que ninguém o ensine, ele aprende a isolar e identificar pessoas e objetos em seu ambiente; aprende a reconhecer a mãe e o pai, os demais membros da família. Na verdade, até mesmo antes de entender o significado das palavras, ele aprende a reconhecer o som da voz da mãe, do pai e dos familiares, aprende a “estranhar” fisionomias e vozes estranhas... Esses são feitos de aprendizagem quase inacreditáveis – e o bebê humano o realiza em seus primeiros meses e de forma absolutamente natural. Ao nascer, ele tem um olhar aparentemente vago, não focado, que parece não enxergar nada de específico. Na verdade, parece que ele recebe uma série de estímulos visuais mas não é capaz de diferenciar um objeto do seu “background”, um objeto do outro, um objeto inanimado, que fica fixo em um lugar, de uma pessoa que se mexe e se move, que lhe fala, que o carrega, que o alimenta. Mas rapidamente aprende a fazer essas distinções.
Aos poucos o bebê aprende a reagir aos estímulos naturais e às estimulações artificiais que lhe são oferecidas por outras pessoas, e começa a diferenciar coisas e pessoas, identificar e reconhecer a mãe, o pai e os familiares. Logo ele aprende a olhar essas pessoas nos olhos, a sorrir. Mais tarde aprender a estender os braços para que lhe peguem. Assim que as pernas ficam mais firmes tenta ficar em pé no berço, mais tarde tenta andar... Ao mesmo tempo, começa a entender o significado de algumas palavras e expressões – entendimento que cresce rapidamente com o tempo. Mais tarde começa a tentar se comunicar, através de gestos, apontando. Depois tenta imitar os sons da voz dos adultos e começa a resmungar, tentando enunciar alguns sons específicos – até que aprende a falar, no início precariamente, mas adquirindo competência rapidamente.
O que uma criança humana é, na média, capaz de aprender nos primeiros três ou quatro anos de vida é absolutamente impressionante. Em casos que já fogem um pouco da normalidade, mas nem tanto, há crianças que, por volta dos quatro anos, entendem e até mesmo falam mais de uma língua, conseguem ler, andam de bicicleta como adultos, nadam como adultos, etc.
(Em Heidelberg, há dias, vi um menino de no máximo três anos, andando, como um adulto, pelas ruas de paralelepído da Cidade Velha, numa bicicleta naturalmente pequena, mas sem rodinhas auxiliares: andava rapidamente, desviando-se competentemente das pessoas e de outros obstáculos, fazendo curvas com perfeição... Também há alguns dias, na estação ferroviária de Genebra, entabulei conversa com uma menina de quatro anos, filha de portugueses, que falava o português e o francês sem problemas. Na realidade, a filha de meu amigo Roberto Jayme Rodrigues, cuja mulher é austríaca, e que morou e freqüentou escola em Barbados e, depois, em Washington, falava, aos quatro anos, com perfeição, sem sotaque, e, aparentemente, sem esforço algum, o português, o alemão e o inglês.)
Uma outra coisa importante sobre a capacidade de aprender das crianças pequenas é que ela se exerce sem necessidade de motivação extrínseca. A criança é naturalmente disposta e inclinada a aprender, tem o que se convencionou de chamar de “curiosidade natural”. (É só mais tarde, na escola, que crianças parecem se tornar refratárias ao aprendizado).
O sentido básico e fundamental do termo “aprender” é tornar-se capaz de fazer aquilo que antes não se conseguia fazer. É nesse sentido que se diz que alguém aprendeu a nadar ou a falar francês – esse alguém não conseguia nadar ou falar francês e, agora, é capaz de fazê-lo.
Quando, em algumas línguas, se usa o termo correspondente a aprender (“apprendre”, por exemplo, em francês) com o sentido de “ficar sabendo”, “tomar ciência de”, “ser informado de que”, etc., trata-se de um sentido derivado, na verdade, figurativo – quase espúrio. O francês chega ao extremo de usar o termo “apprendre” até mesmo no sentido de “fazer saber”, “dar ciência”, “informar”, ou, por absurdo, “ensinar” – que, na realidade, quer dizer dar, transmitir, repassar informações.
Aprender, portanto, em seu sentido básico e fundamental é tornar-se capaz de fazer aquilo que antes não se conseguia fazer. Aprender é, portanto, construir um “saber fazer” – não apenas um saber.
Construir um “saber fazer”, por seu lado, é um processo de desenvolver as habilidades e competências envolvidas naquele “saber fazer”. Desenvolver uma competência (aprender a nadar ou aprender a falar francês) implica desenvolver um conjunto de habilidades que, em seu conjunto, constituem a competência em questão (no caso de aprender a nadar: aprender a flutuar na água, aprender a mover braços e pernas sincronizadamente, aprender a respirar nos momentos adequados, etc.; no caso de aprender a falar francês: aprender a identificar, entender, pronunciar e usar adequadamente as palavras, aprender entender e a construir concatenações de palavras sintaticamente admissíveis, etc.).
É evidente que nesse processo de construir um “saber fazer” é preciso se obter uma quantidade, por vezes razoável, de informações. Mas o fundamental no aprender é o tornar-se capaz de fazer algo que não se conseguia fazer antes. A aquisição de informações, embora presente, não é o aspecto fundamental da aprendizagem.
Além disso, essa aquisição das informações necessárias para o processo de desenvolvimento de determinado conjunto de habilidades e competências não precisa se dar, necessariamente, através de um processo de “ensino” (apresentação de informações) por parte de terceiros. Não raro, o próprio aprendente consegue identificar e encontrar as informações necessárias, por si próprio.
Um aspecto essencial da natureza “aberta” (não determinada) da “programação” humana a que fizemos referência atrás está no fato de que, ao observar uma criança recém-nascida, mesmo que o façamos com a ajuda de pessoal especializado e instrumental sofisticado, não conseguimos dizer se ela vai gostar de música, de pintura, de literatura, de matemática, de ciências, de filosofia, de atividades físicas, de se relacionar com os outros, etc. – e, por conseguinte, se vai se tornar um artista, um lógico-matemático, um cientista, um filósofo, um esportista, um diplomata. Testes psicológicos podem nos permitir fazer algumas conjeturas altamente genéricas, mas dificilmente nos permitem prever com precisão.
Uma das coisas que o ser humano rapidamente aprende é discriminar (diferenciar, distinguir), avaliar (atribuir valores, considerar algumas coisas melhores, mais bonitas, mais gostosas do que outras), escolher (definir e expressar preferências) e tomar decisões com base em preferências.
É possível dar leite sem gosto a uma criança pequena por algum tempo: mas assim que ela toma pela primeira vez um leite com açúcar, ou com chocolate, ou até mesmo com café, ela reconhece a diferença – e, em geral, sabe dizer qual é o mais gostoso, e, se tiver condições, escolhe de acordo. O mesmo com outras comidas. Uma criança, já na fase de papinha, come papa de mandioquinha, abobrinha, espinafre e almeirão, sem sal ou qualquer outro tempero. Mas ao comer a mesma papa com sal e outros temperos, reconhece a diferença – e, em geral, sabe dizer qual é o mais gostoso, e, se tiver condições, escolhe de acordo. O mesmo quando se trata de papa de frutas e de legumes e vegetais. Quando toma sorvete, ou come brigadeiro, então...
O sistema também começa a funcionar, hoje em dia cada vez mais cedo, em relação a roupas, brinquedos, programas de televisão e qualquer outra coisa que atraia a atenção das crianças. Tenho visto crianças muito pequenas demonstrar preferências inequívocas sobre o que querem vestir – e até mesmo decidir que não vão usar determinadas roupas e simplesmente não as usarem. Tenho uma neta que, aos três anos, decidia o que queria usar e, mesmo se ameaçada de castigo ou outra punição, não arredava pé. E minha filha sabe ser bastante incisiva e persuasiva.
E assim vai.
Esse sistema de diferenciação, avaliação, escolha e decisão está na base do desenvolvimento de duas características essenciais para a vida humana competente e autônoma do adulto: a liberdade e a racionalidade. E isso é aprendido. Ouso dizer que o ser humano não nasce livre e racional – mas nasce com o potencial (isto é, a capacidade) de desenvolver essas características que muitos definem como essenciais para a sua humanidade. Se ele as desenvolve ou não, ou a extensão em que as desenvolve, depende de sua educação.
A capacidade de aprender do ser humano, e tudo mais que ela exige em termos de “infraestrutura” biológica e mental, me parecem ser inatos no ser humano. Mas o que será feito dessa capacidade caramente depende do ambiente em que lhe é dado nascer e crescer.
O debate entre os defensores da natureza (“nature”) e da cultura (“nurture”) não pode ser resolvido com um apelo exclusivamente a um dos componentes desse binômio: ambos os componentes são necessários.
O sentido da educação é, portanto, o desenvolvimento humano – desenvolvimento esse que se dá pela aprendizagem.
Tudo isso significa que o fim maior da educação é tornar possível a realização do ser humano – em outras palavras: tornar possível a sua felicidade.
Há uma diferença importante entre felicidade e contentamento e entre felicidade e prazer sensorial. A felicidade é a realização de um projeto de vida. Feliz é o indivíduo que consegue viver a vida que escolheu para si próprio. Esse é um estado razoavelmente permanente, que pode muito bem conviver, momentaneamente, com situações em que a pessoa não está contente nem está sentindo prazer, no sentido sensorial do termo.
Eduardo Chaves
eduardo@chaves.com.br
5 de Março de 2007
Página atualizada pela última vez em: 05/03/2007